SOY LOCO POR TI
Política, Mídias, Economia, Arte, Futebol e Humor na América Latina

15/08/2004

Hasta Luego II

Esse segundo post sobre as férias se deve ao fato de que o UOL restringe
o tamanho do texto.

ECanyon Malacarassa é a foto do canyon Malacara. A sensação de paz e isolamento já valem qualquer esforço pra chegar lá, e toda a agonia pra escapar de lá também. De um dos paredões escorre um fio d´agua que se esfumaça antes de chegar no chão. A vegetação se precipita sobre a rocha e grita com toda força que é verde. Incrível e inesquecível.

No canto direito da foto dá pra ver onde vai parar o filete d´agua, é a cidade de Praia Grande e sua praia gelada. É freqüente a visibilidade ficar tomada por causa de uma nuvem ou outra que é trazida pelo vento do mar.

Nessas horas, o frio aumenta. Quando o sol volta a brilhar, ilumina tudo com uma força arretada. É enebriante ficar observando esse diálogo no canyon - dá vontade de ficar horas olhando esse vazio, que na verdade é intensamente povoado de vida, verde, vento, ventania, vontade.

 

No Ugruguai
Homens bebendo no UruguaiAceguá fica a cerca de uma hora de Riveira, as duas são cidades de fronteira.
Em Riveira eu bebi num lugar que agora, olhando as fotos, parecia em
escombros. Os homens usam chapéu e lenço no pescoço, tê um jeito simples
e elegante, são risonhos e taciturnos, sempre um olhar curioso e respeitorso
quando percebem que é com um brasileiro que falam. Aliás, percebem que o
viajante é brasileiro sem que esse fale nada.

Talvez por nosso olhar abobado,promiscuo, convencido. E como se não bastasse, por nosso desconhecimento da vida deles. Essa foto eu fiz enquanto eles não me percebiam no fundo do bar. Depois que me viram, puxaram papo com uma amistosidade que me convenceu, por horas, de que nos conhecíamos Há muito. "Estas em casa, compañero".

Nesse dia bebi a cerva mais gostosa que já experimentei e cujo nome é, curiosamente, Pilsen. Encorpada, cor de ferrugem, espuma amarelada, grossa, muito boa. A conversa no bar foi sobre futebol, as mulheres brasileiras, o medo das ditaduras que ainda assombram as memórias deles - maior parte tinha na faixa de 50 anos.

 

Fantasma jogando bilharPolitizados, os homens que conheci nos botequins do Uruguai conhecem e acompanham nossa vidinha aqui com uma atenção que só é comparada à atenção que eles devotam às suas próprias coisas. Ah, eles jogam bilhar muito bem.

O senhor dessa foto tem uns 73 anos. Fiquei com vergonha de perguntar, porque achei falta de educação. Fiz a foto depois de conversarmos sobre a razão de ele estar ali, naquele bar, matando o tempo bebendo um vinho barato e jogando bilhar. Me disse que foi agricultor e se aposentou há uns 10 anos.

Não lembro direito o que conversamos. De alguma forma foi a figura mais interessante que conheci na viagem toda por sua elegância, o fino humor e pela alegria de poder beber com os companheiros. A foto dá uma sensação de que ele é um fantasma num dá não?

A próxima viagem será mais longa e mais distante. Quero fazer um trajeto de carro ou de moto por uns dois ou três países - o Chile está entre eles. Já comecei a programar para o próximo ano. Pelo menos 30 dias com mochila nas costas, uma câmara na mão e muito vinho no sangue, que ninguém é de ferro nem de gelo.

Você está convidado (convidada) a seguir comigo, viu Paulo Goethe?

Gracias, gracias a la vida.



 Escrito por Luiz às 23h44 [] [envie esta mensagem]



Hasta luego

Com enorme atraso vai esse post sobre o périplo das minhas férias. Foram somente 16 dias, mas que valeram muito a pena. Voltei do Rio Grande do Sul e do Uruguai com uma vontade danada de voltar a fotografar. O amigo Paulo "Garfield" Rebêlo me emprestou a máquina dele e foi com ela que eu fiz as fotos abaixo.

Janela da pousda em que fiqueim CambaráMeu maior interesse era conhecer Cambará do Sul, uma cidadezinha que fica na região leste do estado, e que é separada do mar por uma cordilheira de canyons - os maiores do Brasil. Dessa vez, Porto Alegre serviu somente de passagem, quase pela janela já que, depois de ir a Cambará, eu desci ao sul do estado e fui até o Uruguai e só passava por Porto Alegre.

Cambará fica a umas seis horas de Porto Alegre, se a viagem for feita de ônibus. Detalhe: seis horas é o tempo de viagem, mais ou menos, do
Recife até Porto Alegre, de avião. O acesso é difícil e ingreme, já que a cidade fica na serra - só que em oposição à serra rica e bem sucedida onde ficam Gramado, Canela e as outras cidades turísticas.

Viviam em Cambará e região os índios Jê, totalmente aniquilados pelos bandeirantes a partir de 1700. Hoje, a população é mestiça - muitos alemães, italianos e descendentes de africanos. A cidade é pobre e a maior atividade depois da extração da madeira é mesmo o turismo.

A foto ao lado foi tirada da pousada onde fiquei em Cambará do Sul. Fazia um frio danado, apesar do sol enorme e aviltante do lado de fora. As mulheres da cidade são lindas e os homens sérios. É uma cidadezinha de interior, com gente pacata e acolhedora.

Existe tempo de sobra e era justamente esse tempo, necessário e suficiente, pra ver uma janela desse jeito que eu precisava.

 

 

 

Canyon ItambezinhoO município tem dois parques, onde ficam os canyons. O primeiro deles que eu fui visitar é o Itambezinho, que tem uma trilha preparada e que qualquer pessoa pode fazer sem guia. A temperatura era de cerca de 6° C quando fiz a primeira dessas fotos. Pra chegar no canyon propriamente dito, passa-se por uma trilha pedregosa pela mata, que é muito fria. O visual é demais. A volta pra Cambará (cerca de 40 minutos de ônibus) teve que ser de carona.

Na espera por uma, na entrada do parque, um longo papo com os vigilantes, tomando um café amargo e quente. Francisco e MArcelo, acho que eram os nomes. Os dois trabalham para o Ibama e têm filhos, mas sentem vontade de sai de Cambará pela falta de opções de estudos pros filhos. Ficaram intrigados como é que eu saí "do Nordeste quente" pra ir visitar um local tão frio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada para o Malacara

O outro parque que eu visitei que não está nessas fotos é o do Malacara. O nome foi dado pelos espanhóis, que dominavam a região antes mesmo do descobrimento do Brasil. O malacara não é um lugar pra ir sem guia. O acesso é difícil, e embora ele fique localizado num parque protegido por lei federal, é um território privado. Por isso a placa abaixo. Mas fui sem guia mesmo assim, porque não tinha nenhum na cidade e eu não opderia esperar - voltaria pra Porto Alegre no dia seguinte.

Para chegar ao canyon, depois do trajeto de ônibus, são cerca de duas horas de caminhada. De longe, a vegetação rasteira dá a impressão
de ser um um grade tapete liso e sem acidentes. De perto, nada mais enganoso e perigoso. O chão é cheio de falhas, algumas delas podem esconder um buraco de meio metro - perna quebrada na certa. Por isso a necessidade de guia, que o esperto aqui não tinha. Por isso a necessidade de nunca, de forma alguam se afastar da trilha, que no caso do Malacara, não é muito esgastada. Ou seja, não é muito clara.

Incrível o que se pensa em duas horas no meio de um descampado a 5°C ou 6°C com um fio constante que reduz a sensação térmica em uns dois Graus. Mais incrível ainda é o que vc pensa se estiver perdido e a temperatura baixando a quase um grau por hora. O Malacara assuta pela beleza, pela imponência. Chega-se ao canyon por um planalto que fica a quase 900 metros de altura, depois de passar por duas áreas de mata atlântica fechada. O visual é indescritível. Do principal mirante dá pra ver a cidade de Praia Grande. Um filete azul de água corre lá embaixo e segu até a cidade. Então percebe-se que o vento frio, constante e infatigável, vem do horizonte azul lá na frente que se mistura com o céu e visto de perto esse horizonte não se mistura a nada a não ser a seu próprio marejar. O horizinte que se vê é o mar casado com o céu.

LabirintoNa volta eu me perdi. Passei cerca de duas horas andando em círculos no meio do descampado, que na verdade não é um decampado. É um labirinto. Essa vista idílica esconde um labirinto em que as paredes são todas iguais. Para qualquer parte que se olhe as distãncias são as mesmas, por isso se perde com tanta facilidade na região. Por isso é necessário levar um guia, ou por ele ser levado.

Foi a melhor lição da viagem toda. Acho que não vale a pena contar o que se aprende estando perdido. Para cada um, as lições de cada qual.

Depois da visita a Cambará revi a querida amiga Janete e seus filhos em Porto Alegre e entãos segui descendo para o sul do estado. Fui ao
Uruguai, mas às cidades ao norte do país. Aceguá, Riveira, Uruguaiana, Vichadeiro, Campo Harmoso, Minas de Corrales, Buena Unión. Poucas vezes me senti tão em casa quanto conversando com Miguel, dono de uma barraquinha no centro do mercado de Minas de Corrales; ou na casa de Mete, uma judia que aluga quartos em Buena Unión; ou no ônibus entre Aceguá e Riveira, dividindo umas bolachas com o filho de Santa Luzia,
acho que uma agricultora índia.

Auto-retratoVoltei pro Recife com umas 50 fotos e a mesma velha impressão já conhecida de que é na estrada (la rota) onde sempre me sinto em casa. Como se nela estivessem as cores, a luz,a objetiva, o cronômetro, o tempo, o obturador, o corpo da máquina, as lentes e o espelho necessários para cumprir com meu auto retrato.

Espero voltar a ela logo logo, como quem volta pra casa.

Hasta luego.

 



 Escrito por Luiz às 22h25 [] [envie esta mensagem]


11/08/2004

Si fuéramos venezolanos, votaríamos por Hugo Chávez el 15 de Agosto

Tariq Ali, James Petras, Walden Bello, Naomi Klein, Ken Loach, Perry Andersson, Atilo Boron, Ignacio Ramonet, Emir Sader, Manu Chao, Chico Buarque vários outros intelectuais, artistas, escritores, músicos e trabalhadores assinaram um manifesto sobre o referendo venezuelano, abaixo reproduzido, no último dia 27 de julho.


Si fuéramos venezolanos, votaríamos por
Hugo Chávez el 15 de Agosto

“Nosotros, los firmantes de este manifiesto, queremos expresar nuestra solidaridad con la lucha que, junto al presidente Hugo Chávez, la mayoría del pueblo venezolano esta llevando a cabo en defensa del derecho a la libre determinación y su futuro.

Al mismo tiempo, queremos denunciar la campaña de desinformación que está siendo orquestada por el medio mas grande y que intenta caracterizar como a un tirano, un presidente que ha respetado continuamente las leyes y la constitución del país.

En las elecciones democráticas de Diciembre de 1998, y todas las elecciones que han tenido lugar desde entonces, Hugo Chávez logró abrumadoras victorias. De acuerdo con las promesas hechas durante su campaña, esta llevando a cabo un proceso de reformas políticas, económicas y sociales fundamentales en un país que, por décadas, estuvo sometido a los dictados de una minoría oligárquica.

ChicãoComo resultado de este programa de reformas, ha sido blanco de ataques por parte de grandes empresas venezolanas e internacionales, de instituciones financieras, y de los medios de comunicación que defienden sus intereses.

Hugo Chávez se ha convertido en el defensor de las mayorías pobres de este país y se ha dedicado a si mismo a promover los principios de la nueva constitución venezolana adoptada por el Referéndum Popular en 1999, como resultado de un proceso de amplia participación democrática.

Esta Constitución, extraordinariamente progresista, contiene una disposición que permite convocar a un referéndum sobre el mandato de cualquier cargo elegido, a la mitad de su mandato o al término del mismo. Como resultado de esta disposición constitucional, el 15 de agosto de este año, un referéndum popular va a determinar si Hugo Chávez continuará siendo presidente de Venezuela hasta el final de su mandato de 5 años.

Esta clase de mecanismo constitucional es único en Latinoamérica y tal vez en el resto del mundo. ¿Cuántos jefes de estado tendrían el coraje de poner a prueba su popularidad antes de finalizar sus mandatos?

Hugo Chávez ha demostrado su coraje y le ha dado así una lección democrática a los sectores de la oposición venezolana que han recurrido, en el pasado, al golpe de estado, el sabotaje económico, mentiras y cierres de empresas por parte de los gerentes en un intento por socavar el orden constitucional del país.

Estos sectores de la oposición, están obligados ahora a actuar dentro del marco legal que previamente habían escogido desconocer.

Eduardo GaleanoEstamos seguros que el 15 de agosto, el pueblo venezolano celebrará una nueva victoria que les permitirá continuar construyendo una sociedad más libre y más justa, el país que Simón Bolívar soñó.

Es por esto que nosotros reafirmamos que: SI FUERAMOS VENEZOLANOS, VOTARÍAMOS POR HUGO CHÁVEZ EL 15 DE AGOSTO.”
Tariq Ali: Escritor (Anglo / Paquistaní)
Perry Anderson: Historiador (Gran Bretaña)
Walden Bello: Economista, premio por el derecho a la subsistencia, 2003 (Filipinas)
Tony Benn: Parlamentario ((Gran Bretaña)
Robin Blackburn, Sociólogo (Gran Bretaña)
Victoria Brittain: periodista (Gran Bretaña)
Atlio Boron: economista (Argentina)
Chico Buarque: Músico (Brasil)
Jose Bove: Ex vocero de la confederación campesina, miembro de la Vía Campesina. (Francia)
Bernard Cassen: Fundador de ATTAC (Francia)
Luciana Castellina: Periodista, (Italia)
Manu Chao: Músico (España/Francia)
Jean Pierre Chevenement: Parlamentario (Francia)
Alexander Cockburn: Periodista (Irlanda/EEUU)
Alex Cox: Cineasta (Gran Bretaña)
Celso Furtado: Economista (Brazil):
Eduardo Galeano: Escritor, (Uruguay)
George Galloway: Parlamentario (Gran Bretaña)
Richard Gott: Historiador (Gran Bretaña)
Eric Hobsbawm: Historiador (Gran Bretaña)
Mike Hodges: Cineasta (Gran Bretaña)
Francois Houtart: Contro Tricontinental (Bélgica)
Saul Landau: Escritor, cineasta (EEUU)
Ken Livingstone: Alcalde de Londres (Gran Bretaña)
Naomi Klein: Periodista (Canadá)
Ken Loach: Director de cine (Gran Bretaña)
Fernando Morais: Escritor (Brazil)
Sami Fair: Sociólogo (Francia)
Oscar Niemeyer: Arquitecto (Brazil)
Adolfo Perez Esquivel: Premio Nóbel de la paz (Argentina)
James Petras: Sociólogo (EEUU)
John Pilger: Periodista/documentalista (Australia)
Harold Pinter: Escritor de teatro (Gran Bretaña)
Ignacio Ramonet: Escritor (Francia)
Emir Sader: Sociólogo (Brazil)
Jeffrey St. Clair: Periodista (EEUU)
Joao Pedro Stedile: Líder campesino de los sin tierra (Brazil)
Rudy Wurlizer: Guionista (EEUU)

 

 

 



 Escrito por Luiz às 22h09 [] [envie esta mensagem]



O outono do patriarca

Se você tem interesse em trocar informações e notícias sobre temas importantes para a América Latina, mande um email para soylocoporti@uol.com.br. Você também pode participar da comunidade Soy loco por ti, America, criada no Orkut.


Não fosse um processo tão complicado, a Venezuela estaria em festa. O referendo que definirá o destino político de Hugo Chávez acontece nesse fim de semana sob o peso de uma incógnita. Ninguém sabe ao certo o que pode acontecer. E isso, apesar dos principais institutos apontarem a vitória de Chávez.

Para apear Chávez do poder, a oposição precisa que 60% dos votos digam não. O número de indecisos ainda é enorme e forma uma mancha difícil de estimar. Cerca de 20% dos 14milhões dehabitantes ainda nãosabem o que fazer com seu voto.

Enquanto isso, o que se percebe pelos jornais é que o clima é de muito nervosismo e expectativa. Do lado de cá, a expectativa tem outro sentido, talvez. É que o vizinho é o quinto maior produtor de produtor de petróleo do mundo e existe a possibilidade, inflada por declarações de Chávez e pela incerteza geral, que o preço do barril chegue a US$ 100 se o presidente for retirado do poder - chegou a US$ 45 semana passada. O efeito dessa explosão seria temporária.

A  questão é saber se a influência americana se fortaleceria na política interna desse país - porque existe um claro interesse para que isso aconteça. É esperar para ver.



 Escrito por Luiz às 21h38 [] [envie esta mensagem]


10/08/2004

Pílulas diárias de humor

Efren,  do Jornal El Nacional, no México

O PRI é o partido que dá sustentação ao presidente mexicano.



 Escrito por Luiz às 11h34 [] [envie esta mensagem]


09/08/2004

2.252 páginas e uns bons amigos

Se você tem interesse em trocar informações e notícias sobre temas importantes para a América Latina, mande um email para soylocoporti@uol.com.br. Você também pode participar da comunidade Soy loco por ti, America, criada no Orkut.


Ter amigos interessantes, inteligentes e informados dá nisso. Depois que eu tive a idéia de fazer esse blog, alguns dos melhores companheiros me sugeriram várias leituras. O primeiro deles foi um Buarque de Hollanda. O doce Sérgio Miguel me emprestou O Incas - a Princesa do Sol, de Antoine B. Daniel.

O livro tem uma bela edição da Editora Objetiva. É um romance ambientado no Peru, em 1526 em que Anamaya, filha bastarda de uma princesa inca é descoberta pelo imperador Huayna Capac como uma predestinada, já que tem, misteriosamente,  os olhos azuis. O pano de fundo é a conquista espanhola. 347 páginas.

Depois de Sérgio, foi a vez da atenciosa Marilene Mendes, que me emprestou História das Sociedades Americanas, escrito por Nivaldo Jesus Freitas Lemos, Oscar Guilherme Lopes e Rubim Santos Leão de Aquino. É um compêndio superdidático de toda a história da América Latrina desde o surgimento dos primeiros povos americanos, as conquistas espanholas, as revoluções e contra-revoluções, até a história recente. 764 páginas.

Otávio, o amigo corsário aqui do Diario, me emprestou Canto Geral de Neruda. "Cê tem que ler, cara. Vai escrever sobre a América Latina sem Pablo Neruda por perto? Não vai prestar. Toma, leva. É pro seu bem". Levei. 451 páginas.

Ai foi a vez de Júlio Jacobina, o cara mais cool que eu conheço. Com enorme sensibilidade, perguntou se eu já havia lido Sete Noites - um conjunto de sete palestras proferidos por Jorge Luis Borges nos dias 1, 6, 13, 15, 22 e 26 de julho e no dia 3 de agosto de 1977, no Teatro Coliseu de Buenos Aires. Borges já estava cego quando falou para aquele público sobre A divina Comédia; O pesadelo, As mil e uma noites, O Budismo, A Poesia, A Cabala e A Cegueira, seus sete temas. "Imagine a experiência única de tê-lo ouvido naquele teatro", me disse Júlio. Imaginei e por isso aceitei emprestadas as 197 páginas do livrinho.
 
Talvez por ser o menor dos livros até então, Sete Noites furou a fila e dele falarei no próximo post
.

Quando eu achava que já tinha o que ler pelos próximos seis meses, aí Renatinha Beltrão, do alto de sua elegância e de seu lindo sorriso aberto me pergunta, "Lula, já lesse Vargas Llosa?". E eu, envergonhado, disse que tinha começado a ler há algum tempo um título que nem me lembrava mais. Foi aí que Renata me convenceu a levar pra casa O paraíso na outra esquina, que narra a vida do pintor Paul Gauguin e de sua avó, a feminista e marxista Flora Tristán. "Acho que é uma leitura legal pro teu blog". Pedi emprestado. 493 páginas.

Há, claro quem não me emprestou livros, mas que dá uma ajuda besta. É o caso de Paulo Goethe, o inumerável. É a ele que eu devo as imagens desse post. Goethe, que não é um, mas inúmeros, ainda me sugeriu uma promoção de bons livros na Imperatriz. Mas ainda não tive coragem de ir lá.

É que contadas e bem pesadas, são 2.252 páginas que eu tenho pra ler e comentar aqui. O próximo post é sobre a lúcida cegueira que Borges revelou naquelas suas palestras.

 



 Escrito por Luiz às 13h38 [] [envie esta mensagem]


04/08/2004

O brilho quase terno de amar a memória

Lá vou eu contrariar o objetivo desse blog. Só aviso que se não tiver visto ainda o filme Brilho eterno de uma mente sem memória, é bom parar por aqui. Também aviso que esse é um loooooooooooooongo post. Mas, como eu imagino, não tem ninguém lendo mesmo...

JoelO roteiro é de Charlie Kauffman, se não me engano o mesmo que escreveu o excelente roteiro de "Quero ser John Malkovitch". É a história de uma paixão que se acaba, como se acabam todas as paixões. Clementine, interpretada por Kate Winslet, resolve um dia apagar a memória do namorado, vivido por Jim Carrey (Joel) por impulso. E o personagem deste resolve fazer o mesmo, por despeito, talvez, ou porque num fundo sentisse que uma memória antes compartilhada e depois solitária é como uma faca na garganta.

Joel descobre no meio do processo que não quer ter sua memória do amor apagada e resolve, enquanto dorme, lutar contra o fim daquilo que deu cores a sua vida e cuja reminiscência ecoa como um bálsamo. Ele luta, enquanto dorme para esconder a lembrança de sua amada nos lugares mais recônditos de sua mente – tenta colocá-la onde ela não poderia estar jamais, como entre as memórias da infância ou entre as suas memórias de humilhações, por serem estas últimas muito escondidas e por nunca terem sido estas visitadas pelo amor de Clementine.

Nada disso funciona e Joel vê, como se fosse um pesadelo, a memória de sua amada se extraviar nas lembranas que tem das brincadeiras na cama, no passeio na praia, na visita a uma casa abandonada nessa mesma praia, no restaurante onde brigaram pela última vez, nos dias de domingo em frente à televisão. Some a imagem de Clementine nas horas em que a própria palavra amor desaparece e reaparece com outro nome (amor) e num desses momentos Clementine lhe implora para que ele nunca a deixe, depois de lhe perguntar se ela é uma mulher bonita.

Quando o casal se vê a poucos minutos de perder a batalha contra o processo que apagará para sempre a presença de Clementine nas memórias de Joel, surge uma alternativa. Clementine sussurra para Joel vá para a praia onde eles se conheceram. É uma derradeira tentativa de salvar, não mais a memória dela, que acabou-se, foi pras cucuias, deletada, mas o encontro dessa vez no mundo da vigília.

Sonho e pesadelo
O roteiro é muito legal, bem costurado e o filme usa dois tempos pra explicar como Joel “perde” a memória. recupera. Mas o filme esconde outros segredos, pelo menos pra mim, que to viajando nele há uns quatro dias. Primeiro. Quando Joel está tendo sua memória deletada ele está sonhando também. A consciência do processo de “deletação” acontece durante o longo, doloroso e horroroso sonho que ele tem em que ele vê o seu amor ser apagado, assim como tudo que a ele se refere. Isso não é mais um sonho, é um pesadelo, justamente porque acontece durante o sono e porque preenche todas as características de um pesadelo.

Mas o que é um sonho? O sonho pode ter muitos nomes, pode ser chamado de muitas coisas. Há quem diga que eles correspondem ao mais baixo plano de atividade mental (Gustav Spiller, The Mind of a Man). Há quem jure que o sonho é representação (psicologia freudiana) ou que busca explicações (Coleridge). Em todos esses casos, o sonho faz parte da vigília. Eu prefiro outra hipótese para o sonho, a dos poetas e dos metafísicos. Para estes, a vigília parece ser sonho e é por isso que Calderón de La Barca escreveu secamente “a vida é sonho”. Sahkespeare escreve que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. Walter Von der Vogelweide, poeta alemão se pergunta Ist es mein Leben geträumt oder ist es wahr? (Eu vivi minha ida, ou foi ela um sonho?”.

Seguindo esse raciocínio, posso imaginar que esse que escreve, essa letras nessa tela, nessa mesa, nesse quarto da rua Nunes Machado, nº 97, e toda a rua Nunes Machado, que fica na invencível cidade do Recife, e o Recife nesse longo continente, tudo isso é um sonho. Como ninguém vai mesmo chegar a esse trecho do texto, é um sonho que eu sonho sozinho. Quando se ama, a coisa muda de figura. É por isso que o filme é tão especial.

ClementineO sonho, nessa linha dada pelos poetas e metafísicos, é a atividade de criação estética mais antiga que existe. Joel cria em seu sonho a última possibilidade de salvação de um amor, que é justamente uma lembrança que não existe: a última despedida. Não é isso que fazemos todos? Criar lembranças, em nossos desejos, do amor nós queremos pra nós e do lugar certo onde encontrá-lo? O que eu me pergunto agora é se o filme com que eu venho sonhando desde o último sábado é um sonho de Joel.

O título do filme é tirado do poema Eloísa para Abelardo, de Alexander Pope (1688-1744). Justamente no trecho em que ela afirma que ela prefere voltar a amar, se desapontar, ressentir-se, odiar de novo, mas jamais esquecer o amor. O trecho do poema está aí em baixo.

 

 

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd;
Labour and rest, that equal periods keep;
"Obedient slumbers that can wake and weep;"
Desires compos'd, affections ever ev'n,
Tears that delight, and sighs that waft to Heav'n.
Grace shines around her with serenest beams,
And whisp'ring angels prompt her golden dreams.
For her th' unfading rose of Eden blooms,
And wings of seraphs shed divine perfumes,
For her the Spouse prepares the bridal ring,
For her white virgins hymeneals sing,
To sounds of heav'nly harps she dies away,
And melts in visions of eternal day.



 Escrito por Luiz às 02h14 [] [envie esta mensagem]


02/08/2004

Pílulas diárias de humor

Se você tem interesse em trocar informações e notícias sobre temas importantes para a América Latina, mande um email para soylocoporti@uol.com.br. Você também pode participar da comunidade Soy loco por ti, America, criada no Orkut.


Nik - Gaturro (La Nacion, Argentina)
Pra começar bem a semana


Yo, Matías, por Sendra (Clarin, Argentina)


Clement, por Caloi (Clarin, Argentina)

Nik (La nacion, Argentina)

 



 Escrito por Luiz às 08h58 [] [envie esta mensagem]


01/08/2004

Ninguém salva uma noite de domingo/poemas de Octavio Paz

Irmandade
Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
(Trad. Antônio Moura)

Conversar
Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.
(Trad. Antônio Moura)

Entre partir e ficar

Entre partir e ficar hesita o dia, enamorado de sua transparência.

A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.

Tudo é visível e tudo é ilusório, tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o vaso, o lápis repousam à sombra de seus nomes.

Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa
(Trad. Antônio Moura)



 Escrito por Luiz às 19h57 [] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   

Reclame:locoporti@gmail.com

INFORMAÇÃO
 
   El Tiempo (Colômbia)
   El Espectador (Colômbia)
   Expresso (Peru)
   Peru 21 (Peru)
   Ultimas Noticias (Venezuela)
   El Universal (México)
   Cronica (México)
   El Mercurio (Chile)
   Clarin (Argentina)
   La Nacion (Argentina)
   La Hora (Equador)
   Ultimas Noticias (Equador)
   El Diario (Bolivia)
   Diario de Notiocias (Paraguai)
   El Pais (Uruguai)
   La Prensa (Nicarágua)
   Prensa (Panamá)
   Fórum Social Mundial (Brasil)
   Agência Latinoamericana de Informação
   Associação de Estudos Latinoamericanos
   Latin American Post (EUA)
   Granma (Cuba)

POLÍTICA E CIDADANIA
        Luta Libertária
        Foreign Policy
        Mídia Tática
        Rede Interamericana para a Democracia
        Nova Democracia
        Marxists Archieve
        ABONG
        OBREAL
        AECidadania
        Pauta Social
        Cebrap.org
        Instituto Pólis
        Eletronic Frontier Foundation
        Move On
        Ponto de Vista/Crítica Política
        Revista Movimiento
        Nueva Mayoria
        LatinoBarometro
        Observatório Político Sul Americano
COLUNAS
       Míriam Leitão
       Veríssimo
       Mário Sérgio Conti
       Pedro Dória
FINA FLOR
        Verbeat
        Síndrome de Estocolmo
        Smart Shade of blue
        Stuckin Sac
        Blog do Gejfin
        O biscoito fino e a massa
        Velo do Farol
        Insanus
        A Arte da Fuga
       La Mala Rosa
       LLL
       Angustiado
       Glamdreams
       Os conspiradores
       Nominimo/Blog
       Pensar Enlouquece
       Códigobr
       Catraca
       Imakinaria
       Por um punhado de pixels
       Wunderblogs
        Radamanto
       Estuário de Samarone
        Mas tudo bem
 
SEXO
       2explicitos
       O sexo de Anali
       Uva na Vulva
       Unaids
       Eros Blog
       World Sex News
       Sex Flog
 
AMIGOS
       Adorada Guadalupe
       Os Pensamentos de Mama
       Blog do Pi
       Fiteiro
       Bom Tom
       Guitar Grinder
        Barraco da Jaca
       Os Blog da Minie
       Hard News
       Cha de panela
       Fotografias/Gondim
       Sofia Bau
       Colchas de retalhos
       Girl Power
        Minha Lilith
        Paulo Rebêlo
        Diário de Bordo
 
 
VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog





O que é isto?
Histórico
   01/06/2006 a 15/06/2006
   16/05/2006 a 31/05/2006
   01/05/2006 a 15/05/2006
   01/04/2006 a 15/04/2006
   16/03/2006 a 31/03/2006
   01/03/2006 a 15/03/2006
   16/02/2006 a 28/02/2006
   01/02/2006 a 15/02/2006
   16/01/2006 a 31/01/2006
   01/01/2006 a 15/01/2006
   16/12/2005 a 31/12/2005
   01/12/2005 a 15/12/2005
   16/11/2005 a 30/11/2005
   01/11/2005 a 15/11/2005
   16/10/2005 a 31/10/2005
   01/10/2005 a 15/10/2005
   16/09/2005 a 30/09/2005
   01/09/2005 a 15/09/2005
   16/08/2005 a 31/08/2005
   01/08/2005 a 15/08/2005
   16/07/2005 a 31/07/2005
   01/07/2005 a 15/07/2005
   01/06/2005 a 15/06/2005
   16/05/2005 a 31/05/2005
   01/05/2005 a 15/05/2005
   16/04/2005 a 30/04/2005
   01/04/2005 a 15/04/2005
   16/03/2005 a 31/03/2005
   01/03/2005 a 15/03/2005
   16/02/2005 a 28/02/2005
   01/02/2005 a 15/02/2005
   16/01/2005 a 31/01/2005
   01/01/2005 a 15/01/2005
   16/12/2004 a 31/12/2004
   01/12/2004 a 15/12/2004
   16/11/2004 a 30/11/2004
   01/11/2004 a 15/11/2004
   16/10/2004 a 31/10/2004
   01/10/2004 a 15/10/2004
   16/09/2004 a 30/09/2004
   01/09/2004 a 15/09/2004
   16/08/2004 a 31/08/2004
   01/08/2004 a 15/08/2004
   16/07/2004 a 31/07/2004
   01/07/2004 a 15/07/2004