SOY LOCO POR TI
Política, Mídias, Economia, Arte, Futebol e Humor na América Latina

31/08/2004

Alberto Korda no Recife

Alberto Korda é o autor daquela foto clássica de Che Guevara, que ainda estampa a camiseta
de muita gente - com um sentido bem diferente ao que era associado na década de 70 e 80.
O fotógrafo pessoal de Fidel Castro é o tema de um livro editado pela pesquisadora paulista
Alessandra Silvestri-Lévy e que será autografado hoje à noite, às 19 horas, na Livraria
Cultura do Recife, no Paço Alfândega.

Korda, que já faleceu, é responsável por algumas das mais belas e reveladoras imagens dos
revolucionários em Cuba e também em Moscou e arredores. Na década de 70, Fidel e seus
acólitos visitaram a grande mãe vermelha, Nikita e outros de seus líderes. O livro tem 82
fotos e algumas das mais interessantes foram feitas justamente nas estepes russas,
debaixo de um inverno com muita neve e brincadeiras de esqui.

Os textos do livro foram feitos pela pesquisadora paulista e pelo francês Christophe
Loviny. Acho que o livro, cuja edição é luxuosa, vai ser o próximo furo no meu já
prejudicado orçamento mensal. Abaixo, algumas fotos de Korda, pescado aqui e
acolá na internet.
Sierra maestra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Luiz às 12h09 [] [envie esta mensagem]


30/08/2004

Pílula Diária de Humor
Sendra/Clarin Diario/Argentina


 Escrito por Luiz às 15h30 [] [envie esta mensagem]


29/08/2004

Anoitecer na Boa Vista

Deve ter sido o barulho lá fora, na rua, ou o volumoso cansaço na frente de um livro que me fez levantar a cabeça e ver o velho bairro da Boa Vista alterado. Movimento demais pra uma tarde de domingo, barulho excessivo pra o horário mais morto e triste da semana. Fui dar uma olhada lá fora e aí eu entendi logo. O sol descia por trás dos prédios da zona norte da cidade, morrendo, morrendo sozinho, envolto numa breve bruma que lhe deixava ainda mais distante.

Rápido e sossegado, o sol dizia adeus para sempre queimando o resto da tarde. Mas isso não era a surpresa maior. A surpresa maior estava do outro lado do horizonte, no mar. Vermelha e amarela, a lua nasceu sem nuvem nenhuma, num firmamento ainda indeciso mas que foi ficando azul de verdade depois.

A surpresa maior foi ver esse céu como uma bacia invertida, clara e azulada, desabitada, sem nuvens; e perceber que a agitação descabida para uma tarde de domingo, das mil e tantas almas correndo para as igrejas da Boa Vista, que o repicar insone dos sinos e o vento morno que bate aqui na janela de minha casa é a senha silenciosa de que o verão finalmente chegou.



 Escrito por Luiz às 18h04 [] [envie esta mensagem]


28/08/2004

VELHO TEMA

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

O belo poema de Vicente de Carvalho foi enviado por Luciana Schuller.

 Escrito por Luiz às 21h24 [] [envie esta mensagem]



Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer
perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta,
mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha
solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom
humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também
preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou
doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco -
em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas
talvez seu medo ou sua culpa.

Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não
desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem
dizer "Olha que estou tendo muita paciência com você!"

Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de
ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais
tola que lhe pareça.

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas,
o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás
de mim reclamando: "Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente
logo: "Pôxa, mais um?"

Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura,
o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre
disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou
podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem
devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte,
incapaz e gloriosa, assustada - uma mulher.

O texto acima me foi enviado por uma amiga muito querida, a Rita de Cássia. Foi escrito por Lya Luft. Nunca li nada da moça, mas achei interessante.



 Escrito por Luiz às 21h18 [] [envie esta mensagem]


26/08/2004

Se você tem interesse em trocar informações e notícias sobre temas importantes para a América Latina, mande um email para soylocoporti@uol.com.br. Você também pode participar da comunidade Soy loco por ti, America, criada no Orkut.


Comrade

Luiz Carlos PrestesEssa é para quem não gostou do personagem desenhado, no filme Olga, da Monjardim, para Luiz Carlos Prestes. Ainda não vi o filme. Mas, graças à enorme estratégia de marketing e ao comentário das pessoas, fiquei sabendo que Prestes é retratado sem força no filme. O diretor deve ter tido sua (novelísticas?) razões.

De qualquer forma, talvez valha a pena conferir o filme The Comrade - The Life of Luiz Carlos Prestes. É um documentário feito por Toni Venturi e que ganhou em sua cagetoria a premiação do Festival É tudo Verdade, em 1997. O filme tem 105 minutos e pode ser comprado aqui.



 Escrito por Luiz às 00h52 [] [envie esta mensagem]



Não, esse blog não morreu

 

Essa é Olga BenárioÉ cedo pra anunciar a não-morte desse blog. A falta de atualização deu-se pelo fato de que este espaço andou padecendo dos efeitos que uma gripe braba, duma febre (passageira) de desencanto e da falta de tesão que acometeu esse que escreve nos últimos dias.

 

Como se não bastasse a enormidade de asuntos para comentar sobre a América Latina, ainda nos aparece no calendário os 50 anos da morte de Getúlio; o filme Olga, de Jayme Monjardim; as Olimpíadas; a minha volta as aulas; o livro de Vargas Llosa (que eu teimo em não terminar) e, mais na frente, uma das datas mais importantes para o processo de redemocratização brasileira. Mas esse último é um assunto talvez para amanhã, em outro post.

 

Hoje encontrei uma informação que não tinha visto em canto nenhum. Sobre a vida da filha de Olga e Luiz Carlos Prestes. A mulher se chama Anita Leocádia e teve uma vida tão espetacular quanto a mãe, e muito sofrida também.

 

Hoje ela é Doutora em Economia e Filosofia pelo Instituto de Ciências Sociais de Moscou. Também é Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense. Fez concurso público em 1992 e hoje leciona História do Brasil na UFRJ.

 

Anita nasceu em 27 de novembro de 1936 na Alemanha de Hitler. Mais especificamente na prisão Barnimstrasse. Foi entregue à avó paterna. Não sei como veio parar anos depois no Brasil, onde se formou em química justamente no ano de 1964. Agora imagine, carregando no nome o Prestes e o verde dos olhos da mãe. Imagine mais: obteve o título de mestre em química no ano de 1966. Em 1970 não agüentou a pressão e refugiou-se na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

 

Como antes de viajar ela militou em partidos de esquerda, foi indiciada, julgada à revelia em julho de 1973, e condenada à pena de quatro anos e seis meses. Dois anos depois a moça recebia seu título de doutora em Economia e Filosofia no Instituto de Ciências Sociais de Moscou.

 

Em 1979, por causa da Lei da Anistia, recebeu o perdão do ilustre Estado Brasileiro. Todas essas informações, públicas, podem ser encontradas no site do Ministério da Justiça. Na última terça-feira, Anita conseguiu uma importante vitória. A Comissão de Anistira do Ministério atendeu seu pedido de anistia política, reparação econômica e contagem do tempo de serviço. Receberá R$ 100 mil como indenização.



 Escrito por Luiz às 00h42 [] [envie esta mensagem]


20/08/2004

Pílula diária de humor
El Comercio/ Peru



 Escrito por Luiz às 16h38 [] [envie esta mensagem]



Siete NochesBorges

Siete Noches é um livrinho de suas 183 páginas, mais um epílogo, que reúne sete palestras proferidas por Jorge Luis Borges nos dias 1, 15, 22 de junho e em 6, 13 e 26 de julho e, finalmente em 3 de agosto de 1977. Por que ler esse livro hoje? Pra mim, porque sempre vale a pena voltar a Borges, em qualquer época; porque ao final da leitura o assombro por sua mente poerosa se une ao prazer do texto; porque sua grandeza ainda hoje tem o poder de nos estimular. A edição que tenho em mãos, e que vou devolver ao amigo Júlio Jacobina não sem uma pontinha de inveja, foi editada em português pela Editora Max Limonad Ltda em 1983.

As palestras foram proferidas por um Borges cheio de problemas de saúde e com depressão. Como se isso não bastasse, ele estava cego. As conferências foram gravadas e publicadas em sete suplementos especiais de um jornal portenho. O resultado não agradou a Borges porque os textos sofreram cortes arbitrários, erros de transcrição e muitas erratas. Também foram vendidos discos de vinil com as gravações. Tudo só foi publicado porque convenceram Borges de que havia dificuldades de publicação. O texto que tenho em mãos foi reeditado por Borges em 1979 e financiado pelo Fondo de Cultura Económica. Os temas das palestras foram A Divina Comédia, O pesadelo, As mil e uma noites, O Budismo, A poesia, A Cabala e finalmente A Cegueira. A baixo, alguns trechos de cada.

A Divina Comédia
"Escolhi a Comédia, como tema desta primeira conferência, porque sou um homem de letras. Nessa condição, considero a Comédia o auge a literatura e das literaturas. Isso não significa que eu concorde com sua teologia e suas mitologias, onde se mesclam pontos de vista cristãos e pagãos. Isso não vem ao caso. Afinal, trata-se de um livro que me proporcionou emoções estéticas mais intensa do que qualquer outro. E repito que sou um leitor hedônico. Busco emoção nos livros. A comédia é um livro que todos devemos ler. Caso contrário, iremos nos privar do melhor dom que a literatura pode nos dar e estaremos nos entregando a um estrano ascetismo: a privação de ler a Comédia. Mesmo porque não se trata de uma leitura difícil. O difícil vem depois da leitura: as opiniões e discussões. O livro em si é cristalino. Nele se encontra um personagem central, Dante, que talvez seja o personagem mais vívido da literatura, além de outros".

O Pesadelo
"Sempre sonho com labirintos ou espelhos. No sonho do espelho, aparece uma outra visão, outro terror das minhas noites: a idéia das máscaras. As máscaras sempre me deram medo. De fato, quando criança, eu sentia que se alguém uma máscara era poque estava escondendo algo horrível"

As Mil e uma Noites
"Em As mil e uma noites há ecos do Ocidente. Encontram-se aí as aventuras de Ulisses - exceto que Ulisses se chama agora Simbad, o marujo. Para construir o palácio de As mil e Uma Noites foram necessárias gerações inteiras de homens, que são homens benfeitores, já que nos legaram esse livro inesgotável e capaz de tantas metamoforses".

O Budismo
"As outras religiões exigem demais de nossa credulidade. Se formos cristãos, devemos acreditar que uma das três pessoas da Divindade aceitou tornar-se homem e foi crucificado na Judéia. Se formos muçulmanos, devemos acreditar que só existiu o seu Deus e o apóstolo Muhammad. Podemos ser bons budistas e negar que o Buda existiu. Melhor: podemos e devemos pensar que não é importante acreditar no fato histórico".

A Poesia
"Certas pessoas tê dificuldade em sentir a poesia, daí dedicam-se a ensiná-la. Creeio que sinto a poesia e que não a ensinei. Nunca ensinei neus alunos a amar este ou aquele texto, mas sim a literatura, considerando-a como uma espécie de felicidade. É que sou quase incapaz de pensar abstratamente (...) Portanto, ao invés de falar abstratamente da poesia, que é uma forma de tédio ou indolência, seria melhor examinar dois
textos, de modo bem concreto".
(...)
"Acredito que a beleza é uma sensação física, algo que sentimos com todo o corpo"

A Cabala
"O curioso modus operandi dos cabalistas baseia-se em uma premissa lógica: a idéia de que a Escritura é um texto absoluto e que, portanto, não pode ser obra do acaso. Mas não existem textos absolutos".

A Cegueira
"A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão muito maior. Essa proximidade que se torna distante pode significar
também o lento processo da cegueira - a respeito do qual procurei lhes falar hoje à noite, para lhes mostrar que ela não é a infelicidade maior.
Indiscutivelmente, a cegueira está entre os muitos e tão estranhos instrumentos com que o destino ou o acaso nos brinda".



 Escrito por Luiz às 00h00 [] [envie esta mensagem]


18/08/2004

Haiti 1 x Brasil 0Brasão do Haiti

Quando avião da FAB aterrissou no aeroporto de Porto Príncipe, capital do Haiti, no dia 18 de agosto de 2004, as ruas que serviriam de trajeto até o estádio Sylvio Cator já estavam tomadas de gente e evaporavam um calor infernal. Sete veículos de combate urutus brasileiros estavam com os motores ligados e prontos para conduzir a equipe brasileira de futebol ao local que, anos depois, seria lembrado como o lugar em que a canarinha sofrera a derrota mais inesperada de sua história.

O selecionado brasileiro fez todo o trajeto como se chegasse em casa vindo de uma árdua vitória. E a mais forte impressão que os jogadores tiveram, mesmo que não tivessem comentado, é que a pobre população da capital haitiana estava ali para torcer pelo Brasil, e não pelo time de seu país.

A sensação era tão forte que ninguém na delegação percebeu direito que o caminho ao estádio foi feito praticamente no meio de uma feira de rua, que mais parecia um cenário lunar em guerra. A festa de chegada da seleção só não foi maior que o estrépito que se ouviu ao final da partida, quando, atônitos, os haitianos pensavam que haviam sonhado acordados o gol que seu líbero, Brunny Pierre Richard, havia feito aos 44 minutos do primeiro tempo.

O cuidado com a segurança da seleção e com o presidente Lula levou o comando militar brasileiro, que governava provisoriamente o Haiti, a destacar 1.700 homens. O maior medo era que as milícias armadas que davam apoio ao ex-presidente Jean-Bertrand Aristide armassem algum atentado. Desde que fora deposto com a ajuda dos Estados Unidos e da França, Aristide via esperançoso suas milícias tentarem uma vã resistência. Mas no dia em que as ruas do Haiti se desmantelaram de verde e amarelo com a passagem da seleção brasileira, toda a milícia semi-derrotada cerrou fileiras com o restante de seus compatriotas diante do desfile daqueles deuses inatingíveis do futebol.

E por um momento todo o Haiti se irmanou de novo no desejo de ser uma pátria de chuteiras. E sorriu admirado e agradecido a visita armada e protegida do melhor futebol do mundo, que roçava as mãos da multidão e pisava com suas chuteiras de ouro o chão castigado de uma terra que sofrera, em 200 anos de independência, 33 golpes de estado.

Uma hora antes do desfile, o humilde selecionado do Haiti já se encontrava no estádio. Gabart Fenelon, 23 anos, o nobre goleiro haitiano foi o último a chegar, porque seu filho passara toda a noite com febre. Fenelon, como todos os outros jogadores de seu país, só deixaria de jogar aquela partida num caso extremo. E foi quase isso que aconteceu, porque seu filho havia ardido em febre por horas. Somente pela manhã, talvez como uma ajudinha de Deus, a febre amainou e Fenelon pôde se encontrar com o restante da equipe. Todos estavam excitados com a possibilidade de jogar com Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldo Gaúcho.

Todos sem exceção imaginavam ainda que participavam de um sonho. Quase todos haviam chegado ao estádio a pé ou de bicicleta, carregando seus pares de chuteiras, com um sorriso aberto no canto da boca e uma alegria contida na base do peito.

O estádio, preparado às pressas, estava lotado, barulho ensurdecedor. Das ruas das redondeza, aos estacionamentos improvisados, passando pelos corredores, pelas gerais, pelo poço chafurdado do estádio, às arquibancadas, e em todas as salas de transmissão da imprensa, os vendedores ambulantes já haviam se instalado como fiscais do desamparo. E vendiam de camisas de Ronaldo (autografadas) a perfumes de Paris, e fotos instantâneas, e cigarros, cervejas, chapéus, protetores solares, óculos de grau e escuro, cinzeiros, porta-lápis, cigarras, celulares de plástico e microcomputadores.

Bandeirolas e fumaça coloriam as arquibancadas. A grama sintética, tão artificial quanto a presença da seleção brasileira no centro do Haiti, cheirava a borracha nova. Todo o estádio, aliás, rescindia a tinta fresca, urdida pelos US$ 15 mil necessários para erguê-lo.

Anos depois, aquela tarde sob sol do Caribe ainda era a lembrança mais tenra de uma geração inteira de haitianos amantes de futebol. E de forma tão especial era relatada aos mais jovens, que esses imaginavam que se tratava mesmo de uma invenção coletiva, criada para amenizar os horrores da crônica devastação do Haiti.

Talvez por imaginarem o final da partida – que a lógica de fora das quatro linhas reverberava nos comentários de todos – a simplória seleção do Haiti foi a primeira a perceber que não estava ali para fazer feio. E, apesar de sua óbvia inferioridade, colocou uma bola na trave direita aos 23 minutos do primeiro tempo. Aquilo assustou os brasileiros, que partiram pra cima dos haitianos durante todo o restante do jogo.

Parecia que a lógica ia se concretizar por causa dos dribles desconcertantes dos brasileiros, da ingenuidade da defesa haitiana, do desnível físico e de tudo que, matematicamente, escrevia nas expectativas de todos a certeza de uma goleada sobre os haitianos.
Foi quando Deus resolveu intervir. Pelo menos é assim que até hoje contam a história daquela tarde inesquecível.



 Escrito por Luiz às 03h09 [] [envie esta mensagem]



Continuação

A arrancada que o capitão haitiano, Bruny Pierre Richard, deu no final do segundo tempo assustou mais a torcida de seu país do que aos próprios jogadores do Brasil. É que a maior parte da torcida queria ver o espetáculo da canarinha, mesmo que fosse em cima de seus compatriotas. Somente num país como o Haiti, cuja maior tradição era estar sempre em processo de destruição, pareceria justo ver de perto a magia dum futebol invencível, mesmo que os derrotados fossem compatriotas seus.

 

É por isso que a arrancada foi vista menos com esperança e mais como uma ameaça reluzente à tarde de alegria. A bola chegou aos pés de Pierre quase morrendo, impulsionada pelo medo do goleiro Fenelon, que deu um chutão na bola como pôde, para evitar que a bola chegasse aos pés de Ronaldo. Chutou com toda a força que tinha e que não tinha, de olhos cerrados e lembrando de seu filho em casa.

 

A impossibilidade de um gol haitiano aos 44 minutos do primeiro tempo era tão grande que nem mesmo a mãe de Pierre Richard pôde acreditar, vendo da arquibancada, que seu filho pudesse driblar dois brasileiros, livrar-se do goleiro, bater com o lado de fora de seu pé esquerdo na bola com a força necessária e suficiente para que ela descrevesse um arco e escapulisse por dez centímetros entre as mãos do goleiro Júlio César, do Flamengo, e a trave, cuja tintura cheirava mais forte que o látex da grama.

 

Redonda como uma dúvida, a bola se esfumaçou no lado direito do gol brasileiro devagar, até chegar ao fundo e se alojar fazendo silenciar cada milímetro do estádio Sylvio Cator. O silêncio foi tão sólido e visível, que anos mais tarde, quando sonhava com sua obra prima, Pierre Richard imaginava ter ouvido o roçar do couro da bola ao tecido da rede. O susto por aquela cena tão impossível quanto real ecoou por alguns minutos como uma vaga tristeza pelas ruas de Porto Príncipe, envolvendo de silêncio as ruas, os bares, os mercados, lanchonetes, hospitais, paralisando de medo os santos das igrejas até acordar do sono o filho do goleiro haitiano pela ligeira impressão que não tinha companhia.

 

Por que foi precisamente essa impressão que cada haitiano teve – a de estar só com uma impossibilidade diante de seus olhos. A essa impossibilidade os haitianos deram muitas vezes o nome de gol, chafurdando esquecidos numa alegria até aquele momento improvável, mas que se instalava para sempre no céu do Caribe.

 

Durante uma semana inteira, o Haiti agradeceu a Deus sua intervenção. Houve até quem lembrasse da melhor performance que uma equipe do país jamais teve numa copa do mundo: em 4 de junho de 1974 o atacante Emannuel Sanon, depois de receber um passe de Philippe Vorbe, driblou o goleiro Dino Zoff e fez seu primeiro (de dois) gols naquela copa. A Itália virou o jogo e venceu por 3 a 1. Durante seis minutos, Sanon foi o herói de uma batalha também inesquecível. Mas nada se comparava à vitória sobre o Brasil, que passaria anos sendo contada e recontada pelos haitianos.

 



 Escrito por Luiz às 03h06 [] [envie esta mensagem]


17/08/2004

Por falar em Hugo Chávez
Mafalda


 Escrito por Luiz às 12h36 [] [envie esta mensagem]



Chavez continua no poder

Buruçu na VenezuelaDebaixo de um buruçu dos diabos, o referendo na Venezuela acabou garantindo a permanência de Chávez no poder máximo da Venezuela. Mas ainda não garantiu a paz ao país. Essa foto foi tirada durante o dia de ontem e representa bem o clima de instabilidade que a Venezuela vive hoje. Se por um lado a vitória de Hugo Chavez era esperada, não se sabe, por outro lado, o que pode acontecer agora.

Pelo menos oito pessoas ficaram feridas a bala na capital venezuelana. Os autores dos disparos,segundo El Nacional, eram partidários de Chávez. O melhor é que a paz volte a reinar logo, porque o corpo de militares do país não é confiável.

O O Centro Americano Carter (uma espécie de ONG que observa eventos internacionais) e a Organização dos Estados Americanos aprovou o plebiscito, apesar de a oposição ter levantado suposições de fraude.

Chávez obteve no referendo 58,25% dos votos, quando já havia sido apurados mais de 94% dos votos válidos.



 Escrito por Luiz às 11h38 [] [envie esta mensagem]



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