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| 15/11/2004 |
Os bêbados e a melancolia
Eu sempre li muito Bukowski, Charles Bukowski. Na maior parte das vezes, pelos motivos errados. Mas só hoje percebo isso e é engraçado notar que o sentido das palavras do velho Buk mudaram completamente desde quando eu o lia, antigamente. Eu o lia, na metade da década passada, querendo ser um bêbado melancólico. Eu acabava não sacando muito bem para quem Bukowski havia escrito seus melhores livros. Não entendia que ele escrevia para uma certa América. E não para os bêbados, muito menos os que querem ser melancólicos.
Hoje em dia eu volto à leitura do velho Charles menos ingênuo e festivo.
Melancholia
the history of melancholia includes all of us.
me, I writhe in dirty sheets while staring at blue walls and nothing.
I have gotten so used to melancholia that I greet it like an old friend.
I will now do 15 minutes of grieving for the lost redhead, I tell the gods.
I do it and feel quite bad quite sad, then I rise CLEANSED even though nothing is solved.
that's what I get for kicking religion in the ass.
I should have kicked the redhead in the ass where her brains and her bread and butter are at ...
but, no, I've felt sad about everything: the lost redhead was just another smash in a lifelong loss ...
I listen to drums on the radio now and grin. there is something wrong with me besides melancholia.
Voltar a ler o velho Buk sem raiva na verdade soa meio insosso. O que mais dava prazer quando comecei a lê-lo era a raiva de se sentir excluído, de fazer parte de uma pedaço da sociedade que está à margem, e que por isso mesmo não faz parte da sociedade direito - isso dá um certo prazer. Em compensação, voltar a ler Bukowski de forma não ingênua tem suas vantagens. E uma delas é perceber um sentido muito especial para a palavra melancolia.
E de outras coisas que você só presta atenção e entende melhor quando a raiva se transforma em objetivo. Bukowski escrevia montado na solidão e poucos escritores domaram tão bem o sentido dessa outra palavra, como tantas, tão vulgarizadas.
Alone with everybody, Extraído de "Love is a dog from hell (Poems 1974-1977)."
the flesh covers the bone and they put a mind in there and sometimes a soul, and the women break vases against the walls and the men drink too much and nobody finds the one but keep looking crawling in and out of beds. flesh covers the bone and the flesh searches for more than flesh. there's no chance at all: we are all trapped by a singular fate. nobody ever finds the one. the city dumps fill the junkyards fill the madhouses fill the hospitals fill the graveyards fill nothing else fills.
Se há uma moral para esse post, é: ainda bem que eu comecei a ler Bukowski um dia, mesmo que pelos motivos errados. Porque é de muitos de seus poemas que eu consigo compreender e mesmo aceitar a melancolia que bate nesse ar quente do Recife, todo fim de ano.
Escrito por Luiz às 20h11
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| 14/11/2004 |
Ele voltou, o boêmio voltou novamente
Paulo Goethe, o inumerável, está de volta ao Recife, depois de passagem por terras argentinas e uruguais. Espera-se para breve novos e importantes posts do amigo sobre as aventuras nas terras do Sul, de quantos churrascos participou, da vida nos pampas e do frio por lá.
O homem voltou tão entusiasmado com a vida nos pampas que se deixou fotografar com a roupa de gaúcho ao lado.
Bem vindo Goethe!
Escrito por Luiz às 19h16
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| 12/11/2004 |
Novamente fora de ordem Esse blog se autoriza o direito de ter mais um post fora de ordem, fora da proposta oficial, inicial.
Venho de Tempos antigos Venho de tempos antigos. Nomes extensos: Vaz Cardoso, Almeida Prado Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti. E amo-te lassa agora, sangue, vinho Taças irreais corroídas de tempo. Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas E elas gritassem, vítimas de nós dois: Intemporais, veementes. Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha: Lobo, lua, raposa e ancestrais. Dize de mim: És minha.
Hilda Hilst
Do desejo (trechos)
I Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada.
IV Se eu disser que vi um pássaro Sobre o teu sexo, deverias crer? E se não for verdade, em nada mudará o Universo. Se eu disser que o desejo é Eternidade Porque o instante arde interminável Deverias crer? E se não for verdade Tantos o disseram que talvez possa ser. No desejo nos vêm sofomanias, adornos Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro Voando sobre o Tejo. Por que não posso Pontilhar de inocência e poesia Ossos, sangue, carne, o agora E tudo isso em nós que se fará disforme?
V Existe a noite, e existe o breu. Noite é o velado coração de Deus Esse que por pudor não mais procuro. Breu é quando tu te afastas ou dizes Que viajas, e um sol de gelo Petrifica-me a cara e desobriga-me De fidelidade e de conjura. O desejo Este da carne, a mim não me faz medo. Assim como me veio, também não me avassala. Sabes por quê? Lutei com Aquele. E dele também não fui lacaia.
Hilda Hilst
Escrito por Luiz às 18h18
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| 10/11/2004 |
Se você tem interesse em trocar informações e notícias sobre temas importantes para a América Latina, mande um email para soylocoporti@uol.com.br. Você também pode participar da comunidade Soy loco por ti, América no Orkut.
Bem vindo a ano 3000
Não é nada, não é nada, essa semana o Soy Loco por Ti chega nas 3.000 page views. E isso apesar de toda a dificuldade em atualizar o blog, apesar de não ter uma internet que preste em casa e apesar de escrever, na maioria das vezes sobre um assunto que nem tá tão na moda. Não é nada, não é nada, consegui fazer novos amigos (Sofia Bau, Jaci, Pietro) e me aproximar ainda mais de alguns (Alexandre Gondim, Paulo Goethe o inumerável, Renatinha Beltrão e Luciana Schuler) e ainda possível confirmar e reafirmar pra mim mesmo a grande paixão por esse continente.
Não é nada, não é nada, tomei de volta o prazer e o hábito de escrever, todo dia, sobre algo que me dá prazer - o que não é pouco. Não é nada, não é nada, tem mum monte de coisa boa pra ler a respeito, no que esse blog me ajuda tanto.
Não é nada, não é nada, vale a pena saldar o que a vida nos dá, sempre. Por mais insignificante que possa parecer.
Gracias a la vida, gracias siempre.
Escrito por Luiz às 22h21
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| 08/11/2004 |
Rapidinha
Entre os dias 16 e 24 deste mês acontece a 6ª Conferência de Ministros da Defesa das Américas. O evento não é tão importante por ser o primeiro em que nosso vice-presidente encarnará o cargo de ministro da defesa. A importância está no que será discutido em Quito, onde acontece o encontro.
O principal assunto é a integração as forças armadas do continente sob a coordenação dos Estados Unidos. Eu fico pensando cá comigo de onde evoluiu essa idéia, que está na pauta da discussão. Fico me perguntando também qual será o tipo de atenção dado, no segundo reinado de George W. Bush Jr. à América Latina.
Dá pra imaginar um milico estadunidense dando ordens aos generais dos países da América Latina de forma legal? Porque é justamente essa a proposta.
PS.: Devo pedir a compreensão dos poucos mas especialíssimos leitores desse blog pela precária atualização. É que esses dias o tempo não está do meu lado.
Escrito por Luiz às 11h21
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| 04/11/2004 |
A sagrada família
 É um dia de casamento e provavelmente o sol estala sobre o telhado de palha da casa de madeira e barro. Mas em seu interior, perfilados diante do fotógrafo, a família se espreme sorrindo triste na sala de estar, todos vestem suas roupas de domingo sobre a pele mestiça e não fosse pela presença dos jovens noivos e de sua tensa proximidade, seria possível dizer que são todos (inclusive os noivos) irmãos e irmãs, primas e primos de uma mesma linhagem familiar. O pai e a mãe não estão na foto, somente os mais jovens da linhagem se acomodam diante da objetiva, respiram fundo por dois segundos e olham a meio horizonte esperando o click da máquina. A cerimônia vai começar daqui a meia hora.
É claro que o casamento pode também já ter terminado, uma vez que os noivos estão próximos. Mas não acredito nessa versão. A noiva não veste branco, o que indica, na pequena cidade onde o casamento acontece, que ela não é pura. Além disso, ela ainda segura o buquê, que momentos depois vai definir a sorte dos sonhos de outra, depois de lançado. Não bastasse isso, estão todos impecavelmente alinhados, os cabelos brilham pelo creme de babosa aplicado, o perfume à base de alfazema no pescoço das mulheres incensa a pequena sala e estão todos ansiosos. Por que então, o noivo pôde ver a noiva antes da cerimônia?
A cor do vestido dela denuncia menos do que o branco tradicional. E nem mesmo as mãos cruzadas que seguram o buquê consegue esconder a tênue silhueta de seu ventre crescido. A impressão é ainda mais alimentada pelo delicado semblante de culpa que cobre os noivos – menos pela fatalidade de um rebento que virá e muito mais pela proximidade sangüínea que une o noivo e a noiva. Eles são primos.
Ela não é a mais velha das irmãs, mas é a mais bonita, o que também pode ser conferido na foto. Ele é mais jovem que ela e, afundado no terno que foi de seu avô, aparenta também um meio orgulho infantil, um meio desafio masculino, um meio medo arredio e a meio escondida expressão de que ainda é uma criança. Ela, em seis meses dará a esse mundo outro mestiço, que se casará cedo também.
Eles se casam na foto da peça publicitária, e também todos os dias, em todas as famílias pobres do interior. O mesmo olhar triste, a mesma cor de chocolate e sangue, a mesma simplicidade, o mesmo orgulho, os lábios grossos, os olhos de índio, tanto cabelo preto. E a mesma família: a beata que olha para o céu e pede pelos noivos, as irmãs solteiras, as crianças, os vestidos de chita, a festa lá fora esperando sob um sol inclemente e o forró que vai assobiar durante toda a noite e poluir o sono dos noivos e o sonho na barriga.
A foto acima é de uma peça publicitária de uma marca de geladeiras. Foi produzida por uma artista do Piauí que colocarei o nome aqui assim que obter de volta a foto, que por sinal estava há seis meses pregada na geladeira daqui de casa, mas que só ontem eu percebi com atenção - por acaso, enquanto matava a sede durante a noite. O escaneamento das imagens e o recorte das figuras, eu devo ao amigo Júnior.
Escrito por Luiz às 00h11
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