Pra você, que é um pé no saco (ou de como o castigo do chato é a companhia eterna de outro chato) (...) "Firma-te bem, que escada tal curtindo", disse o Mestre, ofegando de cansaço, "é que estamos de tanto mal partindo."
Eu já fatigado, o espírito lasso, apressava-me em ir o quanto breve, foi quando o mestre me deteve o passo:
"Mas antes ainda que eu daqui te leve, um último lugar devo mostrar-te, onde até mesmo o mal nunca se atreve.
É para onde vão os que tiveram na arte de ser chatos o seu dever de ofício e fizeram da chatice o estandarte.
São aqueles que enfadar têm por vício, para quem encher o saco é alegria, que não têm de piedade um só resquício."
"Mestre", perguntei ao meu sábio guia, "haverão de merecer pior remessa, que os traidores que agora pouco eu via?"
"Sim", me respondeu o maior dos poetas, "pois quem trai o faz somente um dia, enquanto quem chateia o faz por décadas."
Ao ouvir essas palavras eu tremia, imaginando a pena a tais danados; se Lúcifer os traidores comia,
O que então estaria reservado aos chatos, que em tanto eles excediam? Qual seria deles o horrendo fado?
Ao ver-me desse modo preocupado, Virgílio interrogou-me a tal respeito "Por que trazes o cenho tão cerrado?"
"O que me angustia agora o peito", respondi sem alçar sequer a fronte, "é pensar no que desses será feito".
"Se por tal deixe que eu mesmo te conte: nem é dentro do Inferno que habitam, pois se há na entrada o horrendo Caronte,
Que barra os que ignavos se anunciam, da mesma forma estão todos os chatos além dos traidores que tilintam:
Para eles há um apartado espaço, onde pagam sua pena justamente, que com eles não quer ter nem o Diabo.
Em vez de aguilhões ou rio fervente, estão condenados a conviver uns com os outros, e assim para sempre."
"Martírio mais cruel não pode haver", disse ao Mestre ainda estupefato, "tão cruel quanto justo pode ser."
"Nessas tuas palavras não há reparo; quando aos vivos retornares anuncia que o castigo do chato é o próprio chato."
Logo após uma sombra aparecia co'uma mala sem alça a carregar; era Smart, que sua pena assim cumpria,
E com o tal fardo pôs-se a me falar: "Gastei toda minha vida em vãs querelas, me esforçando em todos aporrinhar.
Agora neste mundo só de treva, uma mala sem alça como eu por toda a eternidade me entreva.
Que fosse meu pecado ser ateu, pois a isso eu achei fizesse jus, mas pior pena ao que não crê em Deus
É guardada aos que vivem com o Cruz." Pois que mal terminadas as palavras, surge a alma ignóbil de Alexandre Cruz:
"Esse aí de mim reclama por nada, em vida nunca de mim diferiu, agora que a sentença a nós foi dada,
Quer fingir em vão que nunca me viu; fugindo eternamente com esta mala, fingindo em vida não ter sido vil.
Eu que, veja, não incomodo em nada, só sei levá-lo ao caminho do bem, lembrando-o de não fazer criançada."
Fugi correndo, dizendo "amém". Virgílio, ligeiro, fugiu comigo: "Assim é como os chatos se entretém",
Disse, e "leva um conselho contigo: aquele que na Terra for um chato, no além os chatos chamará de amigos." E saímos por ali, a rever estrelas.
A Divina Comédia é uma das coisas que vale a pena nesse mundo. Mas é claro, não dá pra esperar que todo mundo tenha lido. Esse trechinho é uma livre adaptação de um dos muitos diálogos entre Dante, o autor d´A Comédia, e Virgílio, o poeta grego que o guia pelo Inferno, Purgatório e até as portas do Céu. No fundo nada disso interessa. O legal é acreditar que todo chato merece outro.
Escrito por Luiz às 13h51
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