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| 15/06/2005 |
Sexus, Plexus, Nexus - peônias
E assím, enquanto íamos adormecendo naquela noite, quando ela rolou para virar-me as costas, as cobertas escorregaram e percebi, pela postura animal que ela assumira, a qualidade maciça de suas costas. Corri as minhas mãos por sua carne, acariciei suas costas como se fossem flancos de uma leoa. Era curioso que eu jamais tivesse reparado em suas costas soberbas. Dormíramos juntos muitas vezes e tínhamos adormecido em todo tipo de postura, mas eu nunca percebera nada. Agora, naquela cama imensa que parecia flutuar na luz desmaiada do vasto quarto, suas costas se gravaram em minha memória. Não me evocavam nenhum pensamento definido - eu só experimentava sensações vagas de prazer diante da força e da vitalidde que havia nela. Era possível sustentar o mundo em suas costas! Não cheguei a formular nada de tão definitivo quanto essa idéia, mas estava lá, em alguma região indistinta e obscura do meu espírito. Provavelmente na ponta de meus dedos.
No chuveiro, eu mexera com ela por causa de sua barriga, que vinha crescendo generosamente, e percfebi de imediato que ela era muito suscetível quanto à sua silhueta. Na verdade, eu não estava criticando suas carnes opulentas - e sim deliciado com a descoberta delas. Eram cheias de promessas, foi o que pensei. Mas então, debaixo de meus olhos, aquele corpo que tinha sido tão generosamente dotado começou a encolher. A tortura interior começava a cobrar seu preço. Ao mesmo tempo, o fogo que havia nela começava a arder com mais intensidade. Sua carne era consumida pela paixão que a devastava. Seu pescoço forte e colunar, a parte de seu corpo que eu mais admirava, foi ficando cada vez mais delgado, até a cabeça ficar com a aparência de uma imensa peônia oscilando na ponta de seu frágil caule.
O texto acima, que deu origem ao título mais estranho desse blog até agora, foi retirado da página 193 do livro Sexus, escrito por Henry Miller em 1949. É, eu sei que literatura não é nem será o forte desse blog. Mas estou dando férias à luta amada. Pelo menos até o dia 1 de julho, tô dedicado a ler um monte de coisas acumulada aqui. Sexus faz parte da Trilogia da Crucificação Rosada, em que Miller narra o processo em que ele se assume como escritor, durante os anos 20 do século passado, na boêmia Nova Iorque.
Vou tentar dar férias aos comentários sobre a Latinoamérica até voltar ao trabalho. Até lá, se ainda houver viva alma lendo isso aqui, vai ter que se contentar com mais posts como esse. Gracias. Só para não perder o hábito:
Projeto Dirceu 12 anos (Dize-me com quem andas que eu te direi se vou)
 Mais, aqui.
Escrito por Luiz às 22h20
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| 08/06/2005 |
Fortaleza: teu nome é prostituição
Estada forçada de uma noite em Fortaleza em junho é assim: 25° C, um pouco de chuva, muitos italianos barulhentos, alguns argentinos angustiados e envergonhados, a burguesiasinha filha-da-puta de interior de sempre e muitas, muitas putas. O que mais hama a atenção não é a quantidade de garçons constrangidos no meio da rua, tentando chamar a atenção dos clientes desavisados. O que mais chama a atenção é que eles, os garços, são em menor número que as putas.
O que chama a atenção é que os donos paulistas dos restaurantes, os donos italianos dos restaurantes, os poucos donos cearenses de restaurantes, os administradores mineiros, os gerentes cariocas, as turistas de segunda estação argentinas, os deputados sem paletó, os pré-adolescentes na noite da Fortaleza desse dia 7/8 de junho têm mais em comum do que o terreno sob os pés. Todo mundo come as meninas do passeio, todos fazem de conta que ninguém sabe disso, todos inventam mentiras parecidas, todos se encontram na mesma selva atrás de um sexo pago, cheiroso demais e triste que faz valer a pena um pouco a vida, e ninguém vai preso.
Afinal, as meninas do passeio são adolescentes. Elas trombam todos os dias com as noivas e mulheres dos donos dos mesmos restaurantes, com as filhas e mulheres dos políticos, com as hipotecadas socialites da noite de Fortaleza, com a fina flor cheia de blush. Todos acham normal dar o cú ou chupar o pau dum político na avenida ao lado; ou acham normal que o namorado, noivo, marido ou filho dê uma com uma das meninas de 16 anos de vez em quando. Deve ser difícil pras garotas de família competir com as meninas da praia, se for pra julgar pelo perfil de falsete primaveril, estéril e babaca que elas têem. Até as garçonetes dos restaurantes chamam as meninas da praia pelo nome, e os guardas de trânsito, o mestre do picadeiro, os repentistas que se apresentam em espanhol, os taxistas sem troco, os ilusionistas, toda a sorte de vendedores da noite e de mendigos.
Puta que o pariu.
É sensibilidade demais? Ou a gente se acostumou à degradação emplumada com cheiro de brisa do mar? Ou será que esse país é pra ser esse desfrute mesmo? Ou será que esse tipo de pergunta nem se deve fazer? Ou será que é melhor virar de lado e dormir em paz, sonhando com amenidades de mesa de bar?
Não precisa responder.
É, minhas férias acabaram.
Escrito por Luiz às 00h06
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