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| 15/12/2005 |
Duas ou três palavras sobre Hugo Chávez
Nesta sexta-feira, 16 de dezembro, o presidente venezuelano Hugo Chávez visita o estado de Pernambuco para erigir a pedra fundamental da refinaria que seráaqui construída numa parceria entre a Petrobras e a Petroleos de Venezuela S.A. Nos últimos meses a imprensa nacional (verde e amarela, azul anil e branco) se empenhou não somente em desautorizar politicamente Chávez, como se não fosse suficiente o que já faz a imprensa venezuelana. A imprensa do sudeste vinculou a escolha do estado de Pernambuco à idéia de que o gerenciamento da PDVSA foi "politizado". Acho é graça.
Porque essa é uma forma com que o discurso ideológico que a propaganda anti chavista se apresenta. E é também fruto do desconhecimento da política daquele país e da história recente da PDVSA. Mesmo com todo o seu populismo (que é ruim e prejudicial), Chávez realinhou a empresa no sentido de torná-la realmente uma empresa pública. Porque até a greve que paralisou as operações da estatal, entre fim de 2002 e começo de 2003, a empresa estava virtualmente privatizada, porque controlada pelos gerentes e chefes subalternos, que não eram nomeados em cadeia hierárquica pelo governo federal, não submetiam nem prestavam contas do seus atos às instituições representativas da República, como o Congresso Nacional e a Presidência. Para se ter uma idéia, o governo não sabia o montante, a variedade e os rendimentos dos seus investimentos em atividades petrolíferas fora do território nacional.
Era como um Estado dentro do Estado, nas palavras da historiadora venezuelana Margarita López Maya. A tecnocracia da PDVSA reformulava autonomamente sua política petrolífera. E o resultado é que houve perda de receita fiscal pelo Estado e de eficiência pela companhia. Chávez teve que demitir boa parte dessa equipe técnica.
A cartilha ideológica do neoliberalismo, pelo qual reza a grande imprensa brasileira e que quase vicia o nosso senso comum, identifica politização com partidarização. Esse mesmo jeito de ver as coisas opõe opolítica à racionalidade econômica: um sujeito não pode ser politizado e racional, se ele é politizado é de "esquerda" ou muito ideológico, incoveniente, ; se a empresa é política, está partidarizada o que ameaça sua saúde financeira. Como eu digo, eu acho é graça.
A PDVSA hoje é politizada no sentido de ser pública, de materializar um programa de fortalecimento continental da presença venezuelana. E ainda consegue ter seu desempenho econômico voltado, de um lado, para a eficiência empresarial e, espera-se agora que também para o benefício dos interesses de todo o povo e da nação venezuelana e não de uma minoria parasitária. Em mais de 100 anos de exploração petrolífera do país, era de se esperar que a situação da população e da economia venezuelana fosse melhor. Mas 60% da população está abaixo da linha de pobreza e o controle sobre essa fonte de riquezas realizado pelas classes dominantes do país não mudou em nada essa situação.
É por isso que eu acho que a escolha (política e técnica) por Pernambuco para a nova refinaria, o fortalecimento da PDVSA no continente, a mudança de objetivos e práticas dentro da empresa (segunda maior vendendora de óleo para os Estados Unidos) deveria ser tratada pela imprensa e pelos jornalistas de forma mais honesta. Pelo menos pelo bem da boa informação de quem lê.
Escrito por Luiz às 14h46
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| 14/12/2005 |
Latifúndios, CPMIS e governo paralelo
 O governo atual - que não é o governo Lula, é o governo dos brasileiros, de todos os brasileiros, por ele responsável, como atesta o processo eleitoral legítimo pelo qual passou -, esse governo talvez seja o primeiro a ser acompanhado "por um governo paralelo". Uma das confirmações disto é a aprovação da CPMI da Terra, que criminaliza os movimentos sociais de luta pela propriedade da terra e recomenda a aprovação de dois projetos de lei. Esses PLs tipificam as condutas de quem ocupa terras (para pressionar o governo a fazer a reforma agrária) como crime hediondo e ato terrorista.
É a direita reacionária, exclusivista e excludente em ação.
O mais aterrador é que o relatório aprovado é um texto alternativo de 19 páginas, assinado pelo deputador ruralista Abelardo Lupion. Em 19 páginas, esse distinto conseguiu resumir toda a guerra que se trava nos intriores desse país pela conquista da terra, todos os processos de assassinatos, intrigas, perseguições, abusos de autoridade, torturas, seqüestros, calotes e dívidas de toda sorte ao BNDES, a formação de milícias armadas. Não é que o senhor Abelardo seja um novo gênio da concisão textual.
É que a CPMI da Terra foi controlada pela bancada ruralista, que rejeitou o trabalho do legítimo relator, o deputado João Alfredo (PT), que em 750 páginas tentou realizar "amplo diagnóstico sobre a estrutura fundiária brasileira, os processos de reforma agrária e urbana, os movimentos sociais de trabalhadores, assim como os movimentos de proprietários de terras".
O governo paralelo conseguiu enterrar um documento que procurou analisar os processos em curso de reforma agrária, o estoque de terras que poderiam ser aproveitadas, entre outros muitos pontos. O documento rejeitado analisa por exemplo o despejo violento nas grandes cidades de pessoas com origem no campo. O documento aprovado é criminoso assim como é criminoso o tratamento que a grande mídia deu à disparidade entre os dois relatórios e ao fato de que o que foi aprovado é só institucionalização da desiguldade social no campo e nas cidades. Para se ter uma idéia, desde 2003, em Pernambuco, 15 líderes de movimentos sociais no campor forma mortos em conflitos. Somente nos últimos dois meses, foram três.
Vamos acabar com o FGTS pra ver como é que fica Ontem à noite o Jornal nacional veiculou reportagem, que deve estar na maior parte dos jornais dessa quarta-feira, sobre o relatório do Bird sobre o mercado de trabalho brasileiro. O Bird recomenda que o Brasil extinga o Fundo de Garantia por tempo de Serviço e o pagamento de indenização em casos de demissão sem justa causa. As sugestões foram coletadas com mais de 100 empresários e objetivam incrementar as exportações brasileiras.
Há pessoas que questionam a existência das velhas categorias de direita e esquerda no mundo da política contemporânea. E com razão. Muita coisa mudou e a denominação dada na idade média não se ajusta mais a duas correntes de pensamentos que, bem ou mal, existem hoje em dia. Muitas dessas pessoas costumam basear suas afirmações com a idéia de que as ideologias acabaram.
Mas a idéia de exploração contida no relatório do Bird procura, ideologicamente, atribuir mais relevância ao sucesso da balança comercial em detrimento ao bem estar de gente. É uma forma de ver as coisas, o mundo a relação entre pessoas e objetos, riqueza, contra a qual muita gente boa se insurge.
Perfil do direitista tupiniquim, em dez traços 10. Ao contrário dos direitistas gringos, europeus ou mesmo mexicanos – virulentamente patrióticos ao ponto da xenofobia – o direitista brasileiro odeia o Brasil. É curioso, porque nenhuma direita traz tantas marcas do seu lugar de origem como a brasileira. Até quando fala de Chesterton.
Os outros traços e uma discussão quente sobre o assunto, aqui.
América Latina e eleições Estou me devendo escrever sobre as eleições no continente, as que passaram, as em andamento e a próximas. Virá.
Escrito por Luiz às 02h03
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| 06/12/2005 |
Software livre no Recife
Começou nessa segunda-feira, 5 de dezembro, o principal encontro das Américas sobre o uso do software Livre. A II Conferência Latino-Americana e do Caribe de Desenvolvimento e Uso do Software Livre (Lacfree 2005), acontece em Recife até o dia 8 de dezembro.
Plenárias, cursos, debates e encontro de usuários estão na programação do evento. Alguns dos temas a serem debatidos dizem respeito à adoção do software livre e de fonte aberta como parte de políticas e planos nacionais para a sociedade de informação no continente. Os participates também discutirão como a adoção dos softwares livres podem incentivar o desenvolvimeto de uma indústria de software na América Latina e Caribe, Índia e África do Sul. E, claro, os aspectos legais envolvendo o uso. A íntegra da programação pode se acompanhada aqui.
Uma das coisas mais interessantes do evento, para quem trabalha, de alguma forma, na área de comunicação, é que o evento terá uma cobertura wiki. Trata-se do trabalho de reportagem de cada uma e de todas as atrações da programação, feita pelos participantes. O termo "cobertura" estrá muito vinculada ao trabalho feito por jornalistas, algumas vezes solitariamente. Aqui é diferente.
A cobertura dos eventos do Lac Free será feita de forma colaborativa pelos participantes nesse endereço. Ao final do evento serão gerados documentos consensuais, formados a partir de debates etre os integrantes. Esse documento final não é somente texto, embora possa sersomente texto. Ele poderá cotar com a eventual apresentação do expositor, videos, fotos, gravações de áudio. Tudo articulado de forma colaborativa. Para maiores informações de como isso é possível, visite este endereço ou este, ou os dois.
Escrito por Luiz às 08h04
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